O presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, será o próximo investigado no esquema de fraudes em aposentadorias e pensões a prestar depoimento à CPMI do INSS.
O gestor, convocado a partir de oito requerimentos aprovados pelo colegiado, falará a senadores e deputados a partir das 16h de segunda-feira (3).
Abraão Lincoln, 64 anos, chegou a disputar cadeira de deputado federal, pelo Rio Grande do Norte, nas eleções de 2018, tendo obtido 42.431 voros, a 14ª votação pelo PRB. A CBPA está entre as associações investigadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto, deflagrada em abril deste ano para apurar descontos irregulares em benefícios do INSS entre 2019 e 2024. Tanto a confederação como Abraão Lincoln Ferreira da Cruz tiveram bens bloqueados, a partir da requisição da Advocacia-Geral da União.
A CPMI já aprovou a quebra dos sigilos bancários e fiscal de Abraão Lincoln e requereu ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) o envio de Relatório de Inteligência Financeira (RIF).
De acordo com o senador Izalci Lucas (PL-DF), um dos requerentes da convocação do presidente da CBPA, a entidade é “um dos eixos centrais da arquitetura criminosa desvelada pela Operação Sem Desconto e responsável por um impacto financeiro estimado em R$ 221,8 milhões subtraídos de forma contumaz e sistêmica dos benefícios de aposentados e pensionistas”.
O nome de Abraão Lincoln já foi citado em questionamentos do relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), a convocados ouvidos pelo colegiado.
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS acredita que Abraão Lincoln, através da Confederação A Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA) a qual preside, é a “peça-chave”, “um dos principais operadores” dos desvios no INSS e “uma das engrenagens centrais de um esquema predatório que drenou recursos de aposentados e pensionistas”. A referência está na justificativa de novo requerimento emitido pela Comissão, solicitando o Relatório de Inteligência Financeira (RIF) de Abraão, entre janeiro de 2019 e julho de 2025.
O requerimento foi aprovado pela CPMI e enviado ao Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf). O ofício de requerimento número 207/2025 foi enviado no último dia 23 de setembro ao Conselho.
O requerimento, assinado pelo senador Izalci Lucas (PL – DF) afirma que o relatório financeiro é um passo investigativo “inadiável e fundamental” para a CPMI. O impacto estimado das atividades irregulares da Confederação da Pesca, por Abraão presidida, é de R$ 221.884.427,63 somente entre fevereiro de 2023 e março de 2025.
Quebra de sigilo
A CPMI INSS aprovou em 11 de setembro a quebra de sigilo de 67 pessoas e 91 associações, entre elas está o Sindnapi (Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos) que tem como vice-presidente Frei Chico, irmão do presidente Lula (PT). Também consta na lista Abraão Lincoln Ferreira da Cruz. O potiguar é presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA) e vice-presidente nacional da Força Sindical; tendo histórico de envolvimento em escândalos nacionais. Em 2015, Abraão chegou a ser preso em investigação da Polícia Federal sobre “vendas ilegais de permissões para a pesca industrial”.
O colegiado também aprovou as quebras de sigilo da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), também ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), e outros nomes como o de Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS, e Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, junto do empresário Maurício Camisotti.
A Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais do Brasil (Conafer), ligada à frente parlamentar em Defesa do Empreendedorismo Rural, está presente na lista, por suspeita de receber mais de R$ 100 milhões do INSS.
O presidente do colegiado destacou que foram retirados da pauta quebras de sigilo de suspeitos que estão fora dos relatórios da Polícia Federal (PF).
O ex-ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT), foi convocado a prestar depoimento na última segunda-feira (8). O ex-ministro de Lula (PT) também tinha um pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal referente a 2023 a 2025, no entanto, não foi votado.
A comissão definiu que terá acesso às informações bancárias das associações que tiveram o sigilo quebrado desde o momento em que foi firmado o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) até a presente data.
Entidade movimentou R$ 409 milhões
A Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), uma das entidades investigadas pelos desvios das aposentadorias do INSS, movimentou 409 milhões de reais em uma agência bancária na periferia do Distrito Federal. As transações, realizadas entre 2024 e 2025, foram consideradas “atípicas” pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Os técnicos chamaram a atenção para dois pagamentos feitos pela entidade a duas empresas que pertencem a Antônio Carlos Camilo Antunes, o ‘Careca do INSS’, apontado pela Polícia Federal como um dos mentores da fraude contra os aposentados. Os repasses à Prospect Consultoria e à Acca Consultoria somaram 12,8 milhões de reais.
O Coaf considerou a movimentação “incompatível” com o patrimônio e a capacidade financeira da entidade. Além disso, foram registrados pagamentos a fornecedores que não apresentam ligação com a atividade fim da confederação.
CBPA
A CPI do INSS já aprovou requerimentos para quebrar o sigilo bancário e fiscal da CBPA e convocar a depor Abraão Lincoln Ferreira, presidente da entidade. O senador Izalci Lucas (PL-DF), autor de um dos pedidos, diz que os repasses podem estar ligados à venda e falsificação de dados cadastrais dos aposentados. “A fraude atingiu também os pescadores, gente simples do interior do país”, ressalta o parlamentar.
Abraão Lincoln já foi suplente de deputado estadual e duas vezes suplente de deputado federal. Em 2015, ele foi preso pela Polícia Federal em uma investigação sobre venda ilegal de permissões para pesca industrial.
O dirigente é bem relacionado em Brasília Em janeiro de 2023, Abraão participou de uma reunião no Palácio do Planalto com o presidente Lula e outros sindicalistas. Na época, era vice-presidente da Força Sindical.
Em fevereiro de 2023, Abraão teve audiência com o então ministro da Previdência, Carlos Lupi, afastado depois da eclosão do escândalo das aposentadorias. Ele também teve encontros com outros ministros do governo para discutir políticas públicas, incluindo Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e André de Paula (Pesca).
A CBPA arrecadou 57,9 milhões em 2023 e 164,7 milhões em 2024 com os descontos nas aposentadorias dos idosos. Procurada, a entidade não quis se manifestar.
Tribuna do Norte