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A esquerda chafurdou no antissemitismo e no ódio ideológico, na semana passada. Fux virou um “judeu sujo”; Charlie Kirk “mereceu morrer”.

esquerda chafurdou no antissemitismo e no ódio ideológico, na semana passada. Por ter divergido dos seus colegas no STF e absolvido Jair Bolsonaro, o ministro Luiz Fux foi chamado de “judeu sujo”; assassinado no campus da universidade de Utah, diante de centenas de pessoas, o ativista conservador americano Charlie Kirk “mereceu morrer”.

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Charlie Kirk, e fui assistir a alguns vídeos dele. Kirk me fez lembrar os monitores da Associação Cristã de Moços (ACM), que frequentei na adolescência.

Fui monitor da ACM, veja só. Jogava basquete lá, veja só. E desisti da ACM ao verificar que havia certa simpatia de gente tão cristã por brutamontes que espancavam travestis, moda paulistana no início da década de 1980, assim como o sapato de bico fino. A direita não é melhor do que a esquerda, em matéria de instintos primitivos.

Em relação ao assassinato do rapaz, a demonstração de ódio mais impressionante foi a de Eduardo Bueno, também chamado de Peninha. Ele foi longe demais. Não gosta de ser associado à esquerda, mas se juntou a ela na indignidade.

Eu conheci Peninha muito antes de ele se tornar um divulgador bem-sucedido de história do Brasil. Nunca fui seu amigo, nós nos víamos apenas quando ele passava na redação da Folha, onde eu era o responsável pelas páginas de resenhas de livros.

Encontrei-o também na Feira de Livros de Frankfurt, quando eu trabalhava na editora Scipione, mas trocamos poucas palavras, e me lembro vagamente de um elogio dele ao filósofo Stuart Mill, um apóstolo do liberalismo, sei lá por quê.

Peninha divulgava os lançamentos da editora gaúcha L&PM, onde também fazia o papel de editor, se não estou enganado. A sua especialidade eram os autores beatniks, que faziam um sucesso anacrônico no Brasil, entre a moçada entusiasmada com os estertores da ditadura militar. Ele também adorava Bob Dylan (judeu, aliás, como Luiz Fux).

Era um sujeito falante e engraçado, com o mesmo corte de cabelo usado até hoje, que o torna parecido com o personagem Peninha, justamente, o pato jornalista de Walt Disney.

Como eu tinha na cabeça o Peninha de 40 anos atrás, foi um choque ainda maior me deparar com o Peninha de 2025, que destila veneno contra Charlie Kirk e faz ironia com a sua morte.

Difícil acreditar que o Peninha do passado já trazia em si o Peninha do presente, mas é isto mesmo: o menino é pai do homem, e basta surgirem condições ideais para ele mostre a sua verdadeira face.

No vídeo chocante, Peninha debocha do assassinato do ativista conservador, dizendo: “Mataram o Charlie Kirk. Ai, coitado, tomou um tiro, não sei se na cara, o Charlie Kirk… Terrível um ativista ser morto por suas ideias, exceto quando é o Charlie Kirk. Tem duas filhas pequenas, que bom pra filhas dele, né?”

A direita caiu em cima da abjeção: promoveu uma campanha de cancelamento (o vídeo foi retirado do Instagram), pressionando para que palestras de Peninha fossem anuladas e sugerindo ao governo americano que o visto da sua filha, que mora no Texas, fosse revogado.

Ele, então, fez o que julga ser uma retratação, e a emenda piorou consideravelmente o soneto. Vou até abrir um parágrafo para reproduzir o que ele disse no Instagram:

“Os deslizes e excessos eventualmente nos incitam e empurram, e não restam dúvidas que cometi. Estou aqui para fazer retratação seguida de poréns (…) Foram parlamentares políticos de extrema direita (que fizeram campanha contra mim), nociva e desprezível, e eu lamento ter dado combustível para eles. Serviu de cortina de fumaça para que não se discutisse a condenação de militares golpistas (…) Eu deveria ter escrito sobre esta criatura desprezível que foi assassinada. Embora o assassinato sempre seja algo a ser lamentado, o mundo sem a presença de certas pessoas, como Hitler e Stalin – embora ele (Kirk) não tenha o mesmo alcance que esses aí – é um lugar que fica melhor. E é um lugar que fica melhor com pessoas do meu tipo.”

Na verdade, o mundo está muito longe de ser um bom lugar, não importa quem o habite. Bob Dylan, venerado por Peninha, foi quem resumiu bem: “A democracia não governa o mundo, é melhor você colocar isso na sua cabeça; Este mundo é governado pela violência, mas acho que é melhor não dizer isso”.

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